Travessia de Verão de Truman Capote - OPINIÃO

Esta foi a minha segunda incursão em Truman Capote depois de ter lido o clássico "Boneca de Luxo" (Breakfast in Tiffany's)  e veio confirmar o que tinha gostado no estilo do autor apesar de "Travessia de Verão" ter sido apenas publicado posteriormente e depois da sua morte. Narrativas com muito por dizer e explicar, a deixar ao leitor muito para imaginar e acabando, de certa forma, por lhe conferir e lhe proporcionar ter um certo papel na história.

Desconhecida durante cerca de 50 anos esta obra esteve na posse do porteiro de um apartamento de Brooklyn onde Capote morou e no qual deixou um caixote com vários pertences com as instruções de serem deitados para o lixo e onde se encontravam quatro cadernos escolares com esta "Travessia de Verão". Em cartas Capote revelou que se debateu durante muito tempo com este manuscrito mas que acabou por decidir colocá-lo de parte, no entanto noutras mais tardias dá indicações de que ainda estaria a pensar na sua publicação, o certo é que nunca se chegou a saber muito bem quais os seus desejos finais em relação a estes escritos.






TRAVESSIA DE VERÃO
Truman Capote
Publicações Dom Quixote, 2002
Romance
130 páginas







Sinopse
Passado em Nova Iorque, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial é a história de uma jovem abastada e descontraída Grady McNeil que os pais deixam por sua conta no apartamento de família na 5a Avenida durante todo o Verão,  largada à sua sorte. Grady deixa subir a temperatura no caso secreto que anda a ter com um veterano de guerra de Brooklyn que trabalha como vigilante num parque de estacionamento. À medida que a estação passa, o romance torna-se mais sério e moralmente ambíguo e Grady acaba por tomar uma série de decisões que irão afectar para sempre a sua vida e as vidas de toda a gente em seu redor.

« Grady pensou na mãe, nos afectos complicados que se tinham gerado entre elas, os momentos de amor que - talvez por falta de fé? ou desconfiança e rancor - ela rejeitara; e ao pensar qual seria a hipótese de resolver isso, percebeu que não existia nenhuma, pois só uma criança o poderia fazer, e a criança tal como a própria hipótese, já tinha desaparecido. »
« Era verdade que os Manzer eram uma família: O cheiro desgastado e os objectos usados da casa exalavam uma vida em comum e uma união que nada poderia abalar. (...) Para Grady, que, nesse sentido, tinha poucas noções de família, tratava-se de uma atmosfera estranha, calorosa, quase exótica. no entanto, não era o tipo de atmosfera que teria escolhido para si - sentir-se-ia rapidamente desgastada pelas pressões asfixiantes da intimidade com terceiros - e o sistema necessitava de clima frio, exclusivo, do individual.  (...) Eram duas maneiras de ser, pelo menos era assim que ela o via. »


Travessia de Verão leva-nos a passear até à inconsciência da juventude com os seus amores impossíveis repletos de loucuras mas também às amizades intensas e confidentes e até ao conflito geracional com uma relação complicada entre filha e mãe, de um enorme distanciamento. 

Grady tem 17 anos e passa o Verão sozinha em Nova Iorque por não querer viajar com os pais para a Europa, aproveitando assim para viver a sua paixão secreta por Clyde, um rapaz judeu de 23 anos. Dois mundos, duas ilhas cuja distância se acentua devido à reserva de Clyde que é bastante vago tanto em se dar a conhecer como em mostrar interesse. Completamente livre, a jovem rica e rebelde comete quase todas as insensatezes proporcionadas pelos desejos de um intenso amor de verão mesmo pressentindo de que ele dificilmente poderia fazer parte do seu futuro. O rapaz do subúrbio retrai-se para conseguir manter uma postura de uma certa indiferença pois à medida que Grady se torna mais importante para si, menos ele o demonstra com medo de não saber o que fazer quando ela o deixar. 

Uma história feita de dois mundos que nos dá os dois lados e perspectivas de um amor vivido de maneiras bem diferentes e condicionado pela diferença de classes que Capote gosta de explorar.

Também é um livro intrigante e com algum mistério no sentido do que fica por dizer e se tenta ler nas entrelinhas e em que muitas vezes nos é revelada determinada situação sem que se explique como tal aconteceu ou se dê grandes pormenores. E acaba por nos prender até ao final no desejo de saber um pouco mais e compreender talvez melhor as personagens.

Gostei da escrita, da forma como ao mesmo tempo que intriga e inquieta nos acaba por prender. Gostei da personagem do Peter, o melhor amigo de Grady, um jovem alegre que traz a leveza e entusiasmo à história.

Não Gostei da contenção das personagens, de se saber pouco sobre elas e sequer conseguir escrutinar alguns dos seus sentimentos e intenções para que melhor as conseguisse compreender o que me levou a não criar nenhuma empatia especialmente com os protagonistas. Não apreciei por aí além o final mas enquadra-se na aura meio enigmática de Capote.

*** (Gostei)

Truman Capote (1924-1984) foi um escritor americano que se aventurou por inúmeros géneros desde os contos, às novelas, peças de teatro e mesmo não-ficção. Entre 1943 e 1946 escreveu essencialmente contos publicados em diversos tipos de revistas. A primeira novela publicada foi "Outras Vozes, Outros Lugares" (1948) a que se seguiu um dos seus maiores sucessos "Boneca de Luxo (Breakfast in Tifanny's) em 1958 muito devido à adaptação para cinema protagonizada por Audrey Hepburn.  Em 1966 escreve a sua obra prima "A Sangue Frio", um texto de não ficção sobre o crime de uma família ocorrido no Kansas que foi um êxito mundial e lhe trouxe grandes elogios da comunidade literária. 


Comentários

  1. Nunca li nada do autora, mas gostava. Já tenho estes dois debaixo de olho :)

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    1. São livros pequenos que primam pelo que deixam por dizer e nos deixam imaginar. Acredito que vás gostar do género. :)

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