segunda-feira, 30 de abril de 2018

Revolutionary Road: Livro vs Filme

Mais uma vez a sequência deveria ser invertida pois vi primeiro o filme, logo quando estreou no cinema em 2009 e só agora li o livro já há algum tempo na minha estante, mas é um dos casos em que não chegaria ao livro se não fosse o filme. Lembrava-me de alguns acontecimentos específicos da história mas não de tudo e tinha a lembrança especialmente da sua forte carga dramática e emocional, voltei a vê-lo para melhor poder fazer a comparação e as lembranças confirmaram-se. 

REVOLUTIONARY ROAD
de Richard Yates
Civilização Editora, 1996
Romance
172 páginas

O livro é o retrato de um casal americano dos anos 50 acomodado a uma vida suposta de se viver, de forma a suprimir as necessidades da família criada, que ao se resignar e seguir os modelos sociais da época vai acabar por deixar para trás as suas promessas e sonhos de uma vida diferente. O resultado é uma realidade repleta de insatisfação e frustração numa relação de frequente tensão e conflito.

Frank e April Wheller idealizavam viver de forma especial e diferente da maioria, mas uma gravidez precoce e não planeada seguida pouco tempo depois de outra empurra-os, em 7 anos para a vida tipicamente americana de subúrbio na Revolutionary Road. Uma vida que não suportam mas em que se vão ver enredados. Com uma certa dose de arrogância, julgam-se superiores aos que os rodeiam, mais interessantes e inteligentes, mas não conseguem fugir à mediocridade confortável que dizem todos os outros viver nem à aparente imagem de família feliz que passam.

Frank queria descobrir e sentir as coisas mas tem um emprego que não suporta, na mesma empresa que o seu pai, carregando o peso da sua figura. April aspirava ser actriz mas tornou-se numa mãe e dona de casa que nunca sequer desejou ser ficando aprisionada nesses papéis.  O fracasso de uma peça de teatro amador em que April participa vem acentuar essa vida de frustração, mas em oposição acaba por acordar-lhe o sonho adormecido da tal vida diferente e elabora um plano para se mudar com a família para Paris onde Frank tinha estado durante a 2ª Guerra e onde, segundo eles, as pessoas estão e são mais vivas, sentem verdadeiramente as coisas e encontram-se mais longe das exigências consumistas. Para eles é uma fuga ao vazio sem esperança de tudo que reconhecem viver e que subitamente se sentem com coragem para enfrentar.

Um romance cru, recheado de angústia e frustração transmitida de forma acutilante com uma linguagem por vezes bem cirúrgica  que o torna inquietante e nos inquieta com uma série de questões sobre a forma como vivemos, como lidamos com as nossas frustrações e como elas podem afectar as nossas relações familiares e o que fazemos com as oportunidades únicas de mudança que surgem.
Gostei da sua densidade, do desenvolvimento  das personagens tanto do casal Frank e April ao nível das visitação ao seu passado e das marcas que a infância lhes deixou como dos seus amigos e da sua caracterização pormenorizada que permite um conhecimento mais profundo. Gostei do tanto que nos leva a pensar e reflectir.
Não gostei muito do final mas faz todo o sentido e é coerente com o desenrolar da narrativa.

**** (Gostei Muito)






REVOLUTIONARY ROAD
de Sam Mendes
com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Michael Shannon
Drama
2008



O filme sendo muito fiel ao livro em termos dos factos perde e distancia-se principalmente pela ausência das referências ao background do casal e das suas vivências de infância/juventude que nos permite conhecê-los melhor, assim como das outras famílias que constituem o seu núcleo de convivência. Pormenores que poderiam dar ao filme ainda mais densidade.
As interpretações de Leonardo Di Caprio e Kate Winslet fazem jus aos personagens e são brilhantes, transmitindo na perfeição toda a sua carga dramática, Kate ganhou inclusive inúmeros prémios como Melhor Actriz em diversos festivais de cinema por esse mundo afora. De destacar também a personagem de John Givings que no livro passa um pouco despercebida mas no filme ganha uma dimensão diferente ajudada pela excelente interpretação de Michael Shannon que com a sua loucura quebra o socialmente conveniente e aceitável, verbalizando o que se pensa mas não se diz e fazendo de contraponto e elemento contrastante ás ideias idealistas e argumentos do casal Wheller.
Preferi o livro ao filme apenas pelo maior desenvolvimento das personagens

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