domingo, 26 de novembro de 2017

Os Filhos da Mãe de Rita Ferro


OS FILHOS DA MÃE
Rita Ferro
Contexto Editora, Novembro 2000
Romance
222 páginas
Sinopse
História hilariante de uma família numerosa, disfuncional, que partilha um espaço exíguo e pobre. Com um pai lunático, uma mulher doméstica achinelada, os filhos que vão desde o marialva ao homossexual, passando pela fedelha sobredotada à parelha de gémeos tão bonitos como estúpidos. Até à inesperada cubana, suposta filha  de uma anterior relação do pai com quatro filhos pequenos que vai ameaçar as mulheres e erotizar os homens da casa. A todas estas todas personagens ainda se junta um hóspede, aspirante a escritor.


« Só os livros que ele tinha justificariam uma anulação papal  em qualquer outro matrimónio ; as pilhas amontoavam-se na casa de banho, galgavam os parapeitos  e irrompiam das frestas  do cimento. Quando eram policiais, romances históricos ou poemas de guerrilha, géneros que ele considerava menores, serviam para sustentar as telhas do telhado sempre que as asnas começavam a  ceder.
De papéis, então, nem se fala; iam ganhando território e apoderavam-se das divisões como as razões de uma árvore gigantesca, dessas que descarnam as casas e lhes levantam o chão.
Havia-os dentro dos armários, nas sapateiras e caixas de ferramentas e, no único dia em que a casa pegou fogo, foi porque o Pai resolveu guardar "provisoriamente" uns recortes de jornais dentro do forno, "por precaução", não fosse acabar o papel higiénico e os Gémeos se lembrassem deles para se desenrascar numa emergência. »

« - Abandonei-me a mim, mas não o abandonei a ele, olha que história! - E estendendo-me a moldura, toda orgulhosa : - Já viste bem esta carinha? Nunca mais insisti, mas ficou-me aquela dúvida: como era possível amar-se tanto assim?".»

« Segundo a Cuba, podem gostar de um homem guapo o feo, alto ou baixo, inteligente ou limitado, falhado ou vencedor, pobre ou rico, bruto ou delicado; da única coisa que precisam é de protecção, um ou dois beijos diários na testa, demorados, e a convicção de que são únicas. De resto são generosas e cuidam de nós até à arrastadeira. 
Claro, não é assim tão simples; têm coisas parecidas com as nossas: podem estar bem e não lhes faltar nada  - ternura, dinheiro, compreensão - e de repente passar-lhes uma pela cabeça e olharem para outro gajo. 
Mas sabes quando, exactamente quando? Quando chamamos "insegurança" às dúvidas que lhes criamos, "desequilíbrio" à sua revolta, "dependência" à sua entrega absoluta e "carência" ao amor desmedido que a malta lhes exige, juntamente com vocação para o ferro e imaginação culinária.»


Os Filhos da Mãe fazem-nos rir muitas vezes com as situações hilariantes que vivem e se colocam no seio de uma família numerosa povoada de personalidades bem opostas e que vão dar-lhe uma diversidade estimulante e acabar por trazer perspectivas bem diferentes num ambiente de pobreza mas repleto de cultura pela mão do pai, um homem com a mania dos livros que vive a citar grandes autores como resposta a tudo e qualquer coisa e também da filha sobredotada que lê de tudo e adivinha os desfechos dos filmes
A história das peripécias do clã chega-nos em forma de relato pelo hóspede da família, o estudante de Literatura a quem chamam escritor que a está a contar a uma terceira pessoa, não identificada, incluindo a sua grande paixão por Cuba.
Uma família maluca com alguns segredos, aglutinada através da figura da mãe, uma mulher ignorante e inculta mas muito bondosa e abnegada que trata como filhos todos os que vão surgindo naquela casa, aceitando-os tal com são. Grata por um homem que lê ainda olhe para ela. A força conciliadora e talvez a fonte do amor que a todos une.
Escrito numa linguagem bem informal e divertida, num realismo urbano, este livro poderia muito bem dar um excelente guião para uma comédia de humor negro.

Rita Ferro é uma escritora portuguesa, filha e neta de figuras da literatura como o ensaísta António Quadros, o pai e António Ferro, o avô, um dos editores da revista Orpheu. No entanto foi durante dezenas de anos redatora de publicidade nas Selecções do Reader's Digest durante as quais assinou alguns trabalhos com pseudónimos e só aos 35 anos escreve o seu primeiro romance "Nó na Garganta" em 1990. Desde aí não mais parou a sua produção literária e conta já com 20 romances publicados, de destacar o que escreveu a duas mãos com a sua filha Marta Gautier "Desculpe Lá Mãe" (2002), os seus livros autobiográficos, "A menina é filha de quem?" (2011) e os Diários e a espécie de biografia que escreveu sobre o seu avô António Ferro "António Ferro - Um Homem por Amar" (2016). 

*** (Gostei)

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