Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1909, devido ao seu «nobre idealismo, imaginação vívida e perceção espiritual que caracterizam os seus escritos».
O primeiro conto deste "Livro das Lendas" é precisamente o discurso que a autora proferiu quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura e em que numa visita ao seu velho pai, no Reino do Céu, lhe vai enumerando todas as dívidas e influências que tem e que fizeram dela a escritora que é, contribuindo para o seu reconhecimento.
«Lembras-te (...) de quantas vezes, no Inverno, nos fizeste ler e reler Tegner, Runeberg e Andersen? Foi assim que contraí a minha primeira e já tão grande dívida. Pai, como poderei pagar-lhes por me haverem ensinado a amar os contos e os feitos heróicos, a pátria e a vida humana em toda a sua grandeza, em todas as suas fraquezas?»
O seu conteúdo e estilo são bem distintos de todos os outros contos, mas a essência da mensagem transmitida é a mesma.
Nos restantes somos transportados para o mundo rural da província de Värmland, onde a autora cresceu, com descrições pormenorizadas do meio envolvente a embrulhar histórias simples em forma de parábola que unem fantasia, realismo e espiritualidade e trazem sempre reflexões sobre a condição humana. O sagrado cruza-se com o humano de forma delicada, estando presente nas ações humanas, nos gestos simples e na transformação interior das personagens.
Em "A Rapariga do Brejo Grande" conhecemos uma jovem humilde, marcada pela pobreza e pela marginalização que seduzida por um homem casado e abandonada com uma gravidez, revela uma dignidade comovente, conquistando o respeito daqueles que cruzam o seu caminho através da sua bondade inabalável. Uma história de enorme carga emocional que impressiona não pelos seus acontecimentos e desenvolvimentos, mas, acima de tudo, pela força de caráter de alguém aparentemente tão frágil. Uma história que vive da força silenciosa da sua protagonista, capaz de conservar a sua humanidade quando tudo à sua volta parece querer lhe retirar, mas que ainda assim vai conseguir viver uma arrebatadora história de amor nascida no meio da adversidade.
«— É que eu e a tua mãe, Helga — disse solenemente — temo-nos sempre esforçado por sermos pessoas honestas, e pareceu-nos que por culpa tua tínhamos caído em descrédito. Era de crer que não te havíamos ensinado a distingui o bem do mal. Mas quando soubemos o que fizeste hoje disemos que, pelo menos agora, as pessoas seriam obrigadas a acreditar que tinhas recebido boa educação e bons ensinamentos, e então pensámos que poderíamos talvez ter ainda em ti motivos de contentamento. E a tua mãe não quis que nos deitássemos antes da tua chegada para te fazermos um acolhimento honroso.»
«(...)Helga tornara-se para ele um padrão pelo qual media as outras pessoas, Na verdade, não havia muitas que igualassem aquela rapariga em amor e em caridade.»
Quando penso neste livro, imagino o cenário de uma singela casa no campo com uma lareira, à volta da qual se contam e ouvem histórias de antigamente, passadas em ambiente rural, durante horas, saboreadas lentamente. Cada conto pede tempo, atenção e sensibilidade numa voz narrativa próxima, calorosa de tom acolhedor e intimista.
Milagres acontecem, reis são testados e pecadores encontram redenção. Falam de fé, compaixão, sacrifício e esperança.
Há quem os designe de contos morais, mas mais do que isso são histórias que funcionam como um espelho das fragilidades humanas e do eterno desejo de redenção e
LENDA
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mas que carregadas de profundidade emocional. São histórias que falam de fé, compaixão, sacrifício e esperança
carregam uma profundidade moral e emocional surpreendente.
A escrita de Lagerlöf é serena e poética,
inspira-se na sua paixão por histórias e lendas para criar uma obra rica em simbolismo e profundidade. O seu interesse pela cultura popular e a sua sensibilidade a temas universais transparecem em cada página, resultando numa leitura informativa e envolvente





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