Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1909, pelo seu «nobre idealismo, imaginação vívida e perceção espiritual que caracterizam os seus escritos».
Bibliotex Editor (Diário de Notícias), 2013 Contos
O primeiro conto deste "Livro das Lendas" é precisamente o discurso que a autora proferiu quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura e em que, numa visita ao seu velho pai, no Reino do Céu, lhe vai enumerando todas as dívidas e influências que tem e que fizeram dela a escritora que é, contribuindo para o seu reconhecimento. O seu conteúdo e estilo são bem distintos dos restantes contos, mas a essência é a mesma.
«Lembras-te (...) de quantas vezes, no Inverno, nos fizeste ler e reler Tegner, Runeberg e Andersen? Foi assim que contraí a minha primeira e já tão grande dívida. Pai, como poderei pagar-lhes por me haverem ensinado a amar os contos e os feitos heróicos, a pátria e a vida humana em toda a sua grandeza, em todas as suas fraquezas?»
Nos restantes somos transportados para o mundo rural da província de Värmland, onde a autora cresceu, com descrições pormenorizadas do meio envolvente a embrulhar histórias simples que unem fantasia, realismo e espiritualidade e trazem sempre reflexões sobre a condição humana. O sagrado cruza-se com o humano de forma delicada, estando presente nas ações humanas, nos gestos simples e na transformação interior das personagens.
Foi precisamente essa dimensão humana que mais me cativou. Os contos que mais me marcaram têm em comum a carga emocional das suas histórias ou a força e profundidade das suas personagens.
Em "A Rapariga do Brejo Grande" conhecemos uma jovem humilde, marcada pela pobreza e pela marginalização que abandonada grávida, revela uma dignidade comovente, conquistando o respeito daqueles que cruzam no seu caminho através da sua bondade inabalável. Uma história de uma grande carga emocional que impressiona não pelos seus acontecimentos e desenvolvimentos, mas, acima de tudo, pela força de caráter de alguém aparentemente tão frágil, é capaz de conservar a sua humanidade quando tudo à volta parece querer retirá-la.
«— É que eu e a tua mãe, Helga — disse solenemente — temo-nos sempre esforçado por sermos pessoas honestas, e pareceu-nos que por culpa tua tínhamos caído em descrédito. Era de crer que não te havíamos ensinado a distingui o bem do mal. Mas quando soubemos o que fizeste hoje dissemos que, pelo menos agora, as pessoas seriam obrigadas a acreditar que tinhas recebido boa educação e bons ensinamentos, e então pensámos que poderíamos talvez ter ainda em ti motivos de contentamento. E a tua mãe não quis que nos deitássemos antes da tua chegada para te fazermos um acolhimento honroso.»
«(...)Helga tornara-se para ele um padrão pelo qual media as outras pessoas, Na verdade, não havia muitas que igualassem aquela rapariga em amor e em caridade.»
«De repente, os pequenos começam também a chorar. Pela primeira vez, compreendem até que ponto o pai amara a sua arte. Era horrível para ele ficar ali, alcoólico decaído a ouvir outros tocarem. Que miséria não ter chegadoaonde deveria chegar! Assim, padeceria Leonardo se não conseguisse ultimar o seu avião ou Hugo se nunca pudesse fazer viagens de exploração. Imaginem se um dia eles se vissem reduzidos, velhos cansados, a ver passar por cima das suas cabeças belas aeronaves que não teriam sido inventados por eles e que nem sequer saberiam manobrar!»
A sua escrita tem o tom oral das lendas populares da Suécia, é serena e poética, com uma visão mágica e compassiva do mundo, afastando-se do realismo para abraçar um estilo épico, lírico e cheio de fantasia. É feita de uma simplicidade aparente, mas que carrega uma grande profundidade emocional. Sugere sempre algo mais e maior do que o que é dito e convida à reflexão ao mesmo tempo que revela uma extraordinária compreensão da alma humana.
São histórias que falam de fé, compaixão e sacrifício que se centram no mistério da bondade e na capacidade humana de transformação interior com uma forte dimensão espiritual e moral que pode não conquistar todos os leitores.
Não foi um livro de que tenha gostado por igual em todas as histórias. Mas foi precisamente a possibilidade de encontrar, entre uma lenda e outra, personagens e ideias que continuarão comigo que tornou esta leitura tão especial.
Curiosamente, os três elementos que estiveram na base do reconhecimento de Lagerlöf pelo Nobel — o idealismo, a imaginação e a perceção espiritual — estão também no centro de O Livro das Lendas. Se a imaginação e o fantástico foram os aspetos que menos me conquistaram, foi precisamente no seu idealismo e na sua profunda compreensão da natureza humana que encontrei aquilo que mais me tocou. Foram as histórias em que o extraordinário deu lugar ao humano que mais me tocaram.
Gostei da profundidade e a força emocional de algumas histórias; da humanidade e autenticidade das personagens; da capacidade de transformar lendas em reflexões sobre a condição humana
Não gostei da componente fantástica de alguns dos contos
*** (Bom/Gostei muito)
RECOMENDADO a leitores que gostem de ficção humanista; de histórias que convidem à reflexão; interessados em literatura de pendor espiritual ou religiosa
RECEITA LITERÁRIA para o hábito de julgar antes de conhecer; desenvolver a empatia e a compaixão






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